Do Chapeleiro Maluco:
HERANÇA
Da avó materna:
uma toalha (de batismo).
Do pai:
um martelo
um alicate
uma torquês
duas flautas.
Da mãe:
um pilão
um caldeirão
um lenço.
Poemeto
primavera
Da não-espera
acontecem as
flores.
INICIAÇÃO
Se vens a uma terra estranha
curva-te
se este lugar é esquisito
curva-te
se o dia é todo estranheza
submete-te
- és infinitamente mais estranho
Poemas de Orides Fontela.
ctrl+c;ctrl+v
Estou copiando e colando prá você.
terça-feira, abril 16, 2002
sexta-feira, abril 12, 2002
Pra que serve a cueca?
Extraído (eufemismo de chupado) do Velotrol.
Antonio Prata
Uma das lembranças mais antigas que eu tenho (devia ter uns cinco anos) é a de um Natal. Não pelo harmonioso espírito que envolvia a sala e rondava os convivas, nem pela barba descolada do papai (tio) Noel (Zé Eduardo), mas por um presente em especial. Ganhei — me lembro nitidamente do momento em que abri a caixa — três cuecas, da minha avó. Nada de mais, minha vó sempre me dava roupas, não fosse um dado curiosíssimo, bizarro, sobre aquelas cuecas: é que aquelas cuecas tinham etiquetas. Sim, etiquetas, iguais a essas que têm atrás das calças de moletom ou das golas das camisetas. Fiquei confuso.
Até aquele dia, na minha pequena cabeça lógico-dedutiva de cinco anos, a função óbvia das cuecas era proteger as costas do pinicar torturante que faziam as etiquetas das calças. Punha-se a cueca e pronto, já não se sentia mais etiqueta nenhuma. Uma cueca com etiqueta! Qualquer coisa no mundo podia ter etiqueta; se me aparecessem com um cavalo de etiqueta, numa boa. Seria estranho, mas aceitável. Carros, uma banheira, qualquer coisa, menos a cueca, cuja função era justamente neutralizar a etiqueta das calças. Um contra-senso terrível, um ultraje! Pra que então, raios, serviam as cuecas?
Os adultos deviam estar todos na sala de jantar, em torno da mesa, rindo, seguros. Riam muito os adultos naquela época. Eu estava sentado embaixo da escada, pensativo, ora passando o dedo na etiqueta, ora pendurando a cueca por ela. Resolvi perguntar. Astuto, decidido, fui marchando em direção a mesa, em direção a minha mãe. Entrei num vão entre a cadeira da minha mãe e de alguma tia. Chamei minha mãe, que estava acabando de ouvir uma história.
— Olha mãe, olha mãe... Eu insistia.
— O que, filho?
— Uma cueca de etiqueta!
— É, Antonio, uma cueca de etiqueta... Repetiu ela sem entender muito bem.
— Mas mãe, pode cueca ter etiqueta?
Era difícil explicar aquela dúvida tão complexa. Requeria uma abstração que minha meia década de vida não fora capaz de me prover. Era um discurso no terreno da filosofia, beirando a metafísica, sobre o sentido último das coisas.
— Mas a cueca, mãe, a cueca não é pra não pinicar a etiqueta?
Todos riram na mesa, mas eu não liguei, eu tava aliviado por ter conseguido externar a minha dúvida.
— Não, Antonio, não é não.
E mais risos de todos, risos que foram parando gradualmente diante da minha próxima pergunta:
— Mas se não é pra proteger da etiqueta, pra que que serve a cueca?
Alguns instantes de silêncio dos adultos, de um vacilante silêncio que não passa indelevelmente por uma criança. Quando me lembro da história toda, inclusive, a primeira imagem que me vem é essa, a desse silêncio observado ali do vão entre as cadeiras, quase que de baixo da mesa.
— Bom, Antonio, serve pra não prender o pinto no zíper.
Concluiu minha mãe, rasgando o silêncio, fechando o assunto como um zíper mesmo.
— Mas e quando a calça não é de zíper, pra que que serve?
O zíper ficou emperrado...
Um tio resolveu intervir:
— Ah, Antonio, a cueca é pra proteger, pra deixar tudo ali, sei lá, juntinho, pra não ficar balançando de um lado pro outro que nem pescoço de galin... — e o meu tio foi cortado por diversas outras vozes, umas se rebelando contra a explicação ali na mesa, outras rindo da celeuma toda.
A mim as respostas não convenceram, tanto por serem ruins como por haver duas. Isso não. Proteger o pinto? Mas quem é que tava querendo atacá-lo? Deixar tudo juntinho, mas pra que? O legal era que aquilo balançava, ué?! Cada coisa tinha a sua explicação e eles não haviam conseguido me dar a da cueca. Voltei pra debaixo da escada, pensativo. Alguma coisa havia mudado radicalmente na minha concepção de mundo naquele momento. Algo se partira para sempre.
Aqueles adultos não tinham respostas para tudo. Pior ainda, se não conseguiam explicar as próprias cuecas, como confiar no resto? Então as cuecas não eram para proteger das etiquetas... Huumm...Tudo estava de pernas pro ar, toda a minha cosmologia havia sido perturbada. O mundo chacoalhava de um lado pro outro.
Uma convicção, no entanto, ainda restava. Fui até a escrivaninha da minha avó. Se os adultos achavam que tava tudo certo cueca com etiqueta, ok, problema deles, mas eu não. Peguei a tesoura e, cuidadosamente, cortei uma a uma as etiquetas das três cuecas. Saí andando,orgulhoso. As etiquetas, pelo menos, não me incomodariam.
Depois daquele natal o mundo não me pareceu mais um lugar tão seguro, passei a olhar tudo com um olhar meio desconfiado, meio desencantado. Desse dia em diante, em todo lugar que eu fosse, independente da roupa ou da cueca, alguma coisa sempre me pinicaria. Uma leve coceirinha surgiria de vez em quando. Era a dúvida. A dúvida que nasceu em mim naquele natal, a dúvida diante do mundo, esse lugar curioso, por onde passamos alguns natais e logo partimos, tão incertos como chegamos, sem levar nada, nem ao menos a resposta a mais íntima das perguntas: afinal, pra que servem as cuecas?
Mais Millor:
DÍSTICOS E AVISOS
NA TRADUÇÃO SEMPRE SE PERDE (OU SE GANHA) ALGUMA COISA
Minha interface internética, o geólogo Gravatá, arrancou do ar este apanhado de dísticos e avisos, em inglês, espalhados pelo mundo, uma síntese de bestialógico provando que inglês não é tão universal assim. Provando isso, aqui está o inglês que se usa mundo afora. Fiz uma transubstanciação.
>> Lobby de hotel em Bucareste:
"O elevador está parado até o meio dia. Ate lá os hospedes serão insuportáveis."
>> Hotel em Atenas:
"Os hospedes devem se queixar ao administrador todos os dias entre 9 e 10 da manhã."
>> Hotel em Dusseldorf:
"Não é permitido lavar ou passar no quarto. Mostre sua roupa de baixo à camareira."
>> Lobby de hotel em Moscou:
"Não deixe de visitar o Monastério em frente onde famosos poetas, artistas e compositores russos estão enterrados todos os dias exceto às sextas-feiras."
>> Tíquete de companhia aérea norueguesa:
"Cuidamos de suas malas enviando-as com segurança em todas as direções."
>> Supermercado em Hong-Kong:
"O nosso é o mais eficiente, delicado e atencioso self-service da cidade."
>> Semanário soviético:
"Haverá, esta semana, em Moscou, exibição de 15.000 trabalhos de escultores soviéticos. Todos foram executados nos últimos dois anos."
>> Dentistas em Hong-Kong:
"Dentes extraídos pelos últimos metodistas ocidentais."
>> Loja em Hong-Kong:
"Entre na fila o mais cedo que puder. Na hora do rush é difícil executar os clientes com a devida atenção."
>> Aviso em playground alemão:
"Pede-se às senhoras não terem crianças à beira da piscina."
Frases de Millor Fernandes:
O homem é o câncer da natureza.
O cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria prima.
Livre como um táxi.
Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem.
Eu sei sempre do que é que estou falando. Tirando isso não sei mais nada.
Brasil, condenado à esperança.
Ontem, ontem tinha agá, hoje não tem. Hoje ontem tinha agá e hoje, como ontem, também tem.
Ás vezes você está discutindo com um imbecil... e ele também.
Por falar em nonsense com graça e perfeição, é fundamental você não estar onde se encontra.
Vê se pega: é melhor ser inteligente do que ser rico, mas é melhor ser rico do que ser burro.
Idade da razão é quando a gente faz as maiores besteiras sem ficar preocupado.
Cada vez há mais fortunas feitas entre o pôr-do-sol e o nascer-do-sol do que entre o nascer-do-sol e o pôr-do-sol.
Acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder.
Não há nenhum atleta com espírito esportivo. E nenhum artista trabalha por amor à arte.
Para bom entendedor meia palavra basta. Entendeu ...ecil?
Mais do Ricardo Scott, no Discoteca Básica:
CURIOSIDADES A RESPEITO DE RAUL SEIXAS:
- logo após sua saída da WEA, Raul casou-se com a assessora de imprensa da gravadora, Ângela Maria, a Kika. O curioso é que Raul roubou Kika do presidente da empresa, André Midani, pelo qual o cantor não nutria lá muito afeto (é só ver a letra de "Conversa pra boi dormir", de 1980: "André Se Dane só faz confusão/sonhei com ele e mijei no colchão").
- um dos discos mais caros do Brasil é um disco de Raul, Let me sing my rock´n roll, lançado pelo seu fâ-clube em 1985, em tiragem limitada. Ironia das ironias: a PolyGram pirateou o disco, lançando-o (em CD, inclusive), com o título Caroço de manga
- Raul e seu parceiro Paulo Coelho não tinham a menor vergonha de recorrer a truques (alguns de baixíssimo nível) para manter a métrica, fazer rimas e encaixar letras nas músicas. Em "Água viva" lascaram um "nessa fonte tá escondida/o segredo dessa vida". Em "Moleque maravilhoso" mandaram versos estranhos como "eu exijo meu osso/sou o moleque maravilhoso". E em "Eu nasci há dez mil anos atrás" colocaram um erro de concordância nas paradas (o certo seria "Eu nasci há dez mil anos").
- "Para Noia", uma das melhores músicas do disco Novo Aeon (1975) foi creditada apenas a Raul. No entanto, diz a lenda que a mão fantasma de Hyldon paira sobre a música. "Fizemos a música juntos, mas contribuí muito pouco. Quando fui verificar o registro da música, me falaram 'o Raul mandou dizer que esse negócio de você ter feito a música com ele é paranóia sua...' ", declarou o cantor. Hyldon também diz que aquele famoso episódio em que Raul defendia a cocaína e Tim Maia a maconha (está no livro Noites tropicais, de Nelson Motta) aconteceu em seu antigo apartamento em Copacabana.
- Odair José foi produzido por Raul na CBS, no início dos anos 70. Eis seu relato: "o Raul almoçava com a gente e andava pra todo lado com uma pasta cheia de remédios. Ele mostrava um por um e explicava: ' esse aqui é pra nascer cabelo, esse aqui é pra parar de nascer cabelo...' ".
- Jerry Adriani, outro amigo de Raul, explica que o baiano tinha um lado caretão. "Ele ficava furioso se não lhe déssemos bom dia".
- depois que Raul morreu, quase todo mundo que se meteu a gravar suas músicas se deu mal. Ou pelo menos não se deu bem. Zé Ramalho, por exemplo, gravou um disco inteiro dedicado à obra do cantor e enfrentou tantos problemas burocráticos que o CD quase vinagrou. Paulo Ricardo e o RPM gravaram "Gita" e nada aconteceu - aliás, todo mundo que gravou o disco-homenagem O início, o fim e o meio (Sony, 1991) não logrou sucesso. Debora Blando teve uma das maiores execuções de rádio em 1993 com 'A maçã" - e sumiu. O Ira! tentou três vezes: gravou "Você ainda pode sonhar" (versão de Raul para "Lucy in the sky with diamonds", dos Beatles) e nada. Depois musicou um poema de Raul chamado "Pai nosso da Terra" e... muito menos. Depois foram impiedosamente vaiados ao tentar coverizar "Mosca na sopa" para um especial da Globo em homenagem a Raul - o Ira! quase acabou ali mesmo. Outro que fez uma versão "secreta" de Raul foi Falcão ("Tu és o MDC da minha vida").
- e a exceção vai para... os Titâs e sua versão de "Aluga-se", que encheu o saco no rádio entre 1999 e 2000.
- Rita Lee (que por sinal gravou uma - boa - versão de "Gita", recentemente) encarnou Raul no curta-metragem Tanta estrela por aí. O filme retratava um episódio barra-pesada da vida de Raul, quando ele foi espancado pelo seu próprio público, ao apresentar-se bêbado no interior de São Paulo - ele não lembrava as letras das próprias músicas e passou por impostor. Rita experimentou várias roupas de Raul e todas lhe cabiam como uma luva. Só que diz ela que passou dias com Raul "incorporado" em si própria. "Tentei de tudo quanto é jeito, dizia 'Raul, agora chega, tá?' e ele não subia. A coisa só acalmou quando rezei uma missa para ele".
- os dois principais parceiros de Raul foram Paulo Coelho e Cláudio Roberto. O que pouca gente sabe é que, apesar de terem começado a parceria bem mais tarde, Cláudio e Raul se conheciam desde a infãncia. Raul vinha às vezes passar férias no Rio e ficou conhecendo Cláudio, com o qual se correpondia por cartas. Só para complicar ainda mais, a primeira parceria dos dois, "I don´t really need you anymore", só foi gravada anos mais tarde, no disco A pedra do gênesis, de 1988. Hoje Cláudio vive em Miguel Pereira, afastado da mídia.
- de acordo com Cláudio, o hit "Maluco beleza" serviu para desanimar Raul ainda mais. "Naquela letra ele assumia que não tinha mais controle sobre sua vida", disse.
- Jerry Adriani conta que, quando se casou, não convidou nenhum amigo porque pretendia fazer uma festa fechada, só para familiares. O problema é que Raul descobriu onde seria a festa, vestiu-se de padre e resolveu invadir o casamento, chateado por não ter sido convidado. "Depois o padre chegou e foi uma confusão...", contou.
- voltando ao assunto "regravações de Raul": Zé Ramalho garante que ninguém deve mexer com "Gita", tanto que ele próprio, amigo do falecido cantor, resolveu não gravá-la. "Sempre que essa música é gravada, alguma coisa não dá certo. O RPM gravou e não deu em nada, aquela novela da Manchete, Brida, tinha a música na abertura numa versão super-esquisita e a estação faliu...".
- quer ler uma letra rara de Raul?
"VÊ SE DÁ UM JEITO NISSO" (Raul Seixas-Mauro Motta-Sérgio Augusto)
Trio Ternura (1970)
Você tem amor à sociedade
Nunca esquece um compromisso
Vvive poluída na cidade
Vê se dá um jeito nisso
Quem conhece o mar de Ipanema
Nunca esquece o seu feitiço
Essa sua vida é um dilema
Vê se dá um jeito nisso
Se a moda muda não muda o seu modo
E eu me perco mudando você
Passo e repasso o compasso do passo
Passando e pensando o porquê
Nunca teve mais de um problema
Vive no seu paraíso
Vida não se compra no cinema
Vê se dá um jeito nisso
O seu quadriplex é colorido
Mas você não sabe disso
Seu vocabulário é resumido
Vê se dá um jeito nisso
Vê se dá um jeito nisso...
Vê se dá um jeito nisso...
O que é Blog? leia o artigo do Ricardo Schott, do Eu quero mais. Os links aos vários blogs estão no artigo original.
COMO? VOCÊ NUNCA OUVIU FALAR DE BLOGS?
09 de abril/2002
Por Ricardo Schott
É, a pergunta é essa mesma: você ainda não sabe o que é blog?
Ainda acha que a internet é só sinônimo de chat, pesquisa, passatempo para nerds, Kazaa, Audiogalaxy ou falta do que fazer?
Então você está precisando ler isso aqui.
Blog, ou web logs, são diários digitais. Trata-se de uma das maiores revoluções da internet nos últimos tempos, já que até grandes empresas de comunicação estão se aproveitando da linguagem dos blogs para poder colocar mais informações em tempo real de forma fácil e de maneira que o leitor possa acompanhar o avanço da informação. E para aumentar o tamanho da bagaça, vários blogs estão servindo como fontes de informação. Só para se ter uma idéia, lembram-se do fatídico 11 de setembro de 2001? Pois é, sabe quem deu a melhor cobertura dos acontecimentos que se seguiram após o acontecido? Os blogueiros, que catavam informações, recebiam e-mails e postavam (ou seja, disponibilizam as informações para acesso) em seus blogs. E mesmo que você não seja um grande escritor ou tenha pretensões jornalísticas, fazer um blog pode ser sinônimo de diversão, amigos, extravasar raivas, medos... tudo o que você quiser. E com gente olhando, ainda por cima. Mais: não é preciso entender nada de computador, HTML ou qualquer coisa parecida. É só seguir as instruções e criar o seu, da maneira que bem entender.
DIÁRIOS DIGITAIS? Se você já fez um diário, sabe do que se trata: colocar o que acontece na sua vida, seus pensamentos, suas idéias, o que vai pela cabeça, sem censura. Claro que no blog, a coisa tem um pouco mais de exibicionismo e merece até um pouco mais de atenção: tem gente olhando. Mas no geral, o fato de ser lido - e tem muita gente acompanhando blogs, nem que seja por pura curiosidade - acaba até dando um pouco mais de incentivo para escrever, tanto que muita gente que, em muitos momentos nem se interessariam em comprar uma agenda e fazer um diário, tem o seu blog. "Blog é uma grande catarse", diz a Paula, autora do blog Histórias, Estórias e Afins, no qual conta histórias da sua vida (a maioria delas engraçadíssima). "Meu blog é um diário mesmo, no sentido mais literal da palavra. Não era exatamente o que eu planejava quando comecei, mas com o tempo o blog foi mudando, até ficar com a cara que tem hoje", conta ela, dando uma idéia do que pretende com seu blog. Em sua maioria, os blog seguem um tom mais confessional, de diário mesmo, alguns até com revelações fortes sobre a vida do autor, ou mesmo falando sobre sexo e/ou relacionamento homem-mulher, como é o caso de blogs como o Delícias Cremosase o Homem é tudo palhaço. Mas não existem regras para se fazer um blog. "O princípio básico é a liberdade. Um espaço seu, que cada um faz o que quiser, do jeito que gosta", conta Vanessa Teixeira, autora do blog Prosopopéia e colaboradora do Homem É Tudo Palhaço, um blog que, segundo ela, é lido por muitos homens.
Como a liberdade é a tônica da parada, o criador do blog pode dar a ele a cara que quiser. Há pessoas que criam blogs para falar de música (eu por exemplo, tenho um blog chamado Discoteca Básica sobre resenhas de discos e músicas; desculpe o comercial), para fazer humor... há blogs mais superficiais e abusando da linguagem de ICQ (aquelas coisas como "naum" "tristi", "eh", que a maioria dos blogueiros abomina), há blogs muito bem escritos, etc. "Você não pode se esquecer que o blog é um material de mídia, publico e com grande potencial informativo. O maior erro é se esquecer que as pessoas que lêem sua publicação têm que gostar do que você escreve, têm que vivenciar as suas experiências", conta Pablo, ou "Helter Skelter", autor do blog Pérolas Para Porcos, que mescla diário e informações sobre música e outros assuntos. Já o jornalista carioca "Vela" criou seu blog, o Blog do Vela para se dedicar ao humor e a crítica. "Uso meu blog para esculachar qualquer coisa. De um modo geral faço comentários irônicos e enalteço a cultura trash, aquilo tudo que de tão ruim acaba sendo bom", conta Vela. Mas no geral, você pode criar um blog para apenas colocar coisas da sua vida, fazer amigos, conhecer pessoas e ser lido. Dentro dessa estética, saem blogs muito legais.
BLOGS E ZINES No fundo, no fundo, ter um blog não é muito diferente de ter um fanzine: você pode dar a ele a forma que quiser, sem se prender a formalidades, mesclando informações a coisas mais pessoais. "A primeira regra é não haver regra alguma. O blog é seu, você escreve sobre o que quiser e sobre quem quiser", diz Michel, autor do blog Lacombe F.C, que mistura diário e posts sobre literatura e música. Não por acaso, vários blogueiros são jornalistas, publicitários ou pessoas que têm o hábito de escrever e sonham em publicar seus textos - e vários jornalistas, publicitários, zineiros, escritores, etc, estão fazendo o caminho inverso, montando seus blogs. Blogueiros como o Jotapê (que tem os blogs Bloco do Eu Sozinho e Histórias Falsas e o James (do Ranzinza e do Caostrofobia) criaram blogs especificamente para publicar pequenos textos ou crônicas. Outros profissionais facilmente atraídos pelo mundo dos blogs são webdesigners e afins.
Isso leva logo à pergunta: estaria uma geração nova de escritores se formando através dos blogs? Muitos blogueiros desconfiam, mas a verdade é que os blogs são uma mão na roda para quem quer publicar sues textos e não tem onde. A blogueira paulista Quel, aliás Rachel Kizirian, criou em seu blog Garota Marota um espaço onde escreve um livro, "Retratos". No caminho inverso, o escritor André Takeda, autor do livro "Clube dos corações solitários" (Conrad) escreveu o livro-blog "Quando eu tiver 64", que conta uma história que nasce a partir do blog.
FAÇA JÁ O SEU! Gostou da idéia de ter um blog? Criar o seu é fácil. Você tem apenas que entrar no Blogger, no Weblogger ou no Blig, se logar e seguir as instruções.
O Blogger, que hospeda a maioria dos blogs (todos os com terminação blogspot.com), é feito nos Estados Unidos e, evidentemente, tem instruções em inglês. Ao se inscrever, você cria uma senha, uma password e já pode ir criando seu blog. Você escolhe um nome para ele - é importante ter, antes de tudo, uma pequena idéia do que você quer para seu blog, mesmo que essa idéia mude com o passar do tempo -, um visual (há vários templates fixos, que você só precisa escolher) e depois é só sair colocando o que você quiser. Se você domina um mínimo de HTML, pode fazer algumas coisas a mais, como inclur links, fotos ou até mesmo criar um template só seu. Com o tempo você acaba conhecendo outros blogueiros e até mesmo divulgando seu blog. Outra coisa que ajuda a conhecer mais blogueiros é inserir um guestbook ou mesmo um sistema de comentários no seu blog - embora estes últimos apresentem muitas falhas. "Tenho muitos leitores, aliás nem era o esperado. Decidi fazer um blog porque quero dividir minhas idéias e opiniões com gente inteligente e única", conta Quel.
E se depois disso você se animou a criar o seu blog, é só dar uma olhada nos endereços citados ao longo deste artigo para ter uma idéia do que é o negócio. Depois é só fazer o seu. Ah, e ainda por cima é de graça!
quinta-feira, abril 11, 2002
Do e-zine do Raul Candeloro
Se
Se você precisar de descanso,
Não descanse muito mais que o necessário,
Porque ferro parado enferruja,
Água estagnada apodrece...
E, além disso, talvez, mais tarde, lhe falte tempo
Para terminar a tarefa da existência,
E é trágico demais morrer inacabado...
Se você for alegre e feliz,
Não ria alto demais,
Para que sua gargalhada
Não vá tornar mais doloroso
O gemido de alguém,
Na casa ao lado...
Se nas dores você soluçar,
Faça-o baixinho, bem no fundo,
Bem lá dentro,
Para não apagar algum sorriso
No semblante de alguém,
No andar de cima...
Se você escorregar, na estrada da existência,
E até mesmo cair de uma vez
Não fique deitado no solo,
Clamando pelo destino
Porque lhe falta ainda muito chão,
Muito caminho para andar
E, além disso, você só vai atrapalhar a passagem dos outros.
E, se é triste cair, muito mais triste ainda
É arrastarmos alguém na nossa queda...
Se algum dia, talvez ,você perder a linha
E der vazão ao grito, à cólera, à revolta,
Com ganas de quebrar o mundo ao seu redor -
Não quebre tudo, amigo, por favor
Porque atrás de você vem muita gente ainda
Que deseja encontrar tudo inteiro e belo...
Se você encontrar a semente ou muda
Do raro arbusto da felicidade,
Não vá plantá-lo em seu quintal todo cercado,
Mas sim ao lado de um caminho freqüentado
Para que muitos possam descansar à sua sombra
E comer seus frutos, sem pagar...
Mas se encontrar apenas o caminho
Que leva a essa árvore bendita...
Não vá por ele sozinho!
Fique bem à entrada dele
Com um braço estendido
Assim... como uma flecha,
Apontando e dizendo:
FELICIDADE???...É POR AQUI!!!...
Não se incomode se ficar por último,
Porque todo aquele que passar à sua frente,
Vai lhe dizer "OBRIGADO" e dar-lhe um sorriso lindo...
E quando, enfim, você chegar, depois de todos,
Condecorado, iluminado de sorrisos recebidos,
Verá que os outros estarão à sua espera
PARA QUE VOCÊ ENTRE PRIMEIRO !!!...
Já existia alguém com este domínio.


Nick Hornby e Lúcio Ribeiro, do Pensata.
Bastardos
É claro que eu entendo as pessoas que desprezam a música pop. Sei que muita coisa do mundo pop, a maior parte até, é lixo, sem imaginação, realizada porcamente, produzida nas coxas, repetitiva e infantilóide (embora pelo menos quatro dos adjetivos acima possam ser usados para descrever os incessantes ataques ao pop que você pode achar em importantes jornais e revistas).
E sei também, acredite, que Cole Porter foi "melhor" que Madonna ou Travis. Que a maioria das canções pop são cinicamente direcionadas para um público-alvo três décadas mais jovens que eu. Que tudo de bom no pop foi feito a 35, 25, 15 anos atrás. E que pouca coisa de valor na pop music foi feita, desde então.
Mas é que de repente tem essa canção que eu ouvi na rádio, e que depois eu comprei o CD, e agora eu tenho de ouvi-la dez ou 15 vezes por dia...
É isso que me intriga sobre os de vocês que acham que o pop atual é uma coisa abaixo de você, atrás de você ou além de você (uso pop aqui para englobar soul, reggae, country, rock... qualquer coisa que você possa achar que é lixo).
Será que você nunca ouviu ou pelo menos nunca se viu atraído por canções novas? Será que tudo o que você cantarola no chuveiro foi feito anos, décadas, séculos atrás?
Você realmente se priva do prazer de se entregar a uma boa nova canção pop porque isso pode manchar sua fama de conhecedor de Foucault?
Então. A canção que tem me enchido de prazer recentemente é "I'm Like a Bird", da Nelly Furtado. Só a história vai dizer se ela irá se transformar em uma cantora famosa. E, embora eu suspeite que ela não vá mudar o jeito de as pessoas olharem o mundo, não posso dizer que eu esteja muito preocupado com isso.
O fato é que eu sempre serei grato a Nelly Furtado por criar em mim esse narcótico efeito de me fazer ouvir sua canção again e again. Não quero criar um caso com essa música, "I'm Like a Bird", nem compará-la com qualquer outra _embora aconteça de eu pensar que ela é uma canção pop muito boa, que transmite uma sensação gostosa de sonho, vem marcada por um certo otimismo que, quando tocada em rádio, por exemplo, a diferencia imediatamente das músicas anêmicas que possam vir antes ou depois.
O ponto é que há poucos meses a canção não existia e agora ela está aí. E que ela, em um mundo delimitado, é um pequeno milagre.
Algumas vezes no ano, eu gravo uma fita para tocar no carro. Uma fita cheia com essas novas canções que eu fui amando nos meses que antecederam a gravação. Toda vez que eu terminava uma fita, nunca acreditei que fosse gravar uma outra. Mas sempre vai existir a próxima, e mal posso esperar por ela. Um punhado de canções novas como "I'm Like a Bird" e você terá uma vida que valha a pena ser vivida.
*****************
ASSIM É FÁCIL
O texto acima, infelizmente, não é meu. Foi escrito pelo papa pop Nick Hornby, escritor inglês que dispensa maiores introduções. O texto, inédito, que foi imolado por mim em algumas partes, para o bem da tradução, saiu no mais recente número da britânica "Granta - The Magazine of New Writing".
A "Granta", difícil de achar no Brasil se o seu canal não for muito bom, é uma revista publicada quatro vezes por ano no Reino Unido, sempre dedicada aos novos escritores ou às novas escritas de escritores de certo nome na literatura inglesa.
Hornby deita seus ótimos dotes pop-literários sobre essa tal música da luso-canadense-nãoseioquê Nelly Furtado, que ainda não consegui ouvir.
Mas o alvo verdadeiro de Hornby parece ser uns personagens bem conhecidos nossos, esses que pensam programações de rádio, pautas de revistas e jornais, dirigem programas de TV para jovens. E que não ouvem uma música nova sequer, não se movem por elas, não se emocionam nem um pouco com nada.
Não sei quanto a essa música da Nelly Furtado, mas ouvir "So Young", do Hoggboy, "Fell in Love with a Girl", do White Stripes, "Die, All Right!", do Hives, "Walking with Thee", do Clinic e "I against I", Massive Attack & Mos Def, para citar algumas "novas", e não sentir o sangue ferver nem um pouquinho, não sentir a sensação de estar em outro lugar, ou que quer que seja, essa pessoa está morta.
O Hornby não deve saber, mas muito mais no Brasil do que em qualquer lugar decente no mundo, é o que parece, está cheio de gente para qual o texto dele cai como uma luva.
E é por isso que ele abre a coluna de hoje.
Fora que abrir este espaço com um texto do Nick Hornby torna a vida de qualquer colunista mais fácil. E este aqui agradece ao escritor.
***************
"Meu nome é Afonso Soares, e esta é a minha história:
Estava sentado no meu escritório quando lembrei de uma chamada telefônica que tinha que fazer. Encontrei o número e disquei. Me atendeu um cara mal humorado dizendo:
- Fale !!!
- Aqui é Alfonso Soares. Poderia falar com Andrea ?
De repente senti que desligaram na minha cara. Não podia acreditar que existia alguém tão grosso. Depois disso, procurei na lista telefônica o número correto da Andrea e liguei. O problema era que tinha invertido os dois últimos dígitos de seu número.
Depois de falar com Andrea, observei esse número errado ainda sobre a minha mesa. Decidi ligar de novo. Quando a mesma pessoa atendeu, falei:
- Você é um filho da puta !
Desliguei. Imediatamente anotei este número e ao lado escrevi a palavra "Filho da puta" e o deixei sobre a minha agenda.
Cada três ou quatro dias, quando estava nervoso com alguém, ou com um mal dia, ligava pra ele, e quando ele atendia lhe dizia "Você é um Filho da puta", e desligava. Isto me fazia sentir realmente muito melhor.
Uns meses depois, a Telepar introduziu o novo serviço de "bina" (identificação de chamadas), o qual me deixou triste porque tive que deixar de ligar ao Filho da puta. Então, um dia tive uma idéia: disquei o seu número de telefone, ouvi a sua voz dizendo "Alô" e mudei de identidade:
- Olá, estou ligando do departamento de vendas da companhia Telepar, para ver se conhece o nosso serviço de identificador de chamadas "bina".
- Não! , (e desligou na minha cara). Rapidamente disquei novamente:
- Alô ?
- Por isso que é um Filho da puta !!! - (e desliguei).
A razão pela qual gastei o tempo para contar-lhes esta história, é para mostrar-lhes que se existe algo que realmente está lhe incomodando, sempre se pode fazer alguma coisa a respeito: simplesmente disque 00-57-7-6436732 (ou o número de algum outro Filho da puta).
Assim passou o tempo até que um dia como qualquer outro...
A velhinha estava demorando muito tempo para tirar o carro da sua vaga no estacionamento. Inclusive cheguei a pensar que nunca fosse sair. Finalmente seu carro começou a mover-se e a sair lentamente do seu espaço. Dadas as circunstâncias, decidi retroceder meu carro um pouco para dar à velhinha todo o espaço que fosse necessitar:
"Grandioso!" pensei, "finalmente vai embora".
Imediatamente, apareceu um Camaro preto na contramão e estacionou na vaga da velhinha que eu estava esperando.
Comecei a tocar a buzina e a gritar: "Não pode fazer isso! Eu estava aqui primeiro!". O fulano do Camaro simplesmente desceu do carro, fechou, ativou o alarme e caminhou no sentido do shopping, ignorando a minha presença como se não estivesse ouvindo. Ante a sua atitude pensei: "esse tipo é um Filho da puta! Com toda certeza tem uma grande quantidade de Filhos da puta neste mundo!".
Foi aí que percebi que o cara tinha um aviso de "VENDE-SE" na janela do Camaro. Então, anotei o seu número telefônico e procurei outra vaga para estacionar.
Depois de alguns dias, estava sentado no meu escritório e acabara de desligar o telefone - após ter discado o 00-57-7-6436732 e dizer "Você é um Filho da puta." (Agora já é muito fácil discar pois tenho o seu número na memória do telefone), quando vi o número do cara do Camaro preto e pensei: "Deveria ligar para esse cara também".
Depois de um par de toques alguém atendeu o telefone e falou:
- Alô.
- Falo com o senhor que está vendendo um Camaro preto?
- Sim, é ele.
- Poderia me dizer onde posso ver o carro?
- Sim, eu moro na Rua XV, n° 527. É uma casa amarela e o carro está estacionado na frente.
- Qual e o teu nome?
- Meu nome e Eduardo Silva - (diz o cara).
- Qual a hora é mais apropiada para encontrar com você, Eduardo?
- Pode-me encontrar em casa à noite e nos finais de semana.
- É o seguinte Eduardo, posso te dizer uma coisa?
- Sim.
- Eduardo, você é um Filho da puta !!! - (e desliguei o telefone).
Depois de desligar, coloquei o número do telefone do Eduardo Silva na memória do meu telefone. Por um instante as coisas pareciam estar indo muito bem, mas na verdade tinha um problema: agora eram dois Filhos da puta para ligar.
Após vários meses de ligações ao par de Filhos da puta e desligar-lhes, a coisa não era tão divertida como antes.
Este problema me parecia muito sério e pensei em uma solução:
Em primeiro lugar, liguei para o Filho da puta #1. O cara grosso atendeu:
- "Alô", e então falei:
- "Você é um Filho da puta" -(e não desliguei).
O Filho da puta diz:
- Ainda está aí ?
- Simmmmmmmm !!!.
- Pare de me ligar.
- Não.
- Qual e o teu nome, lazarento ?
- Eduardo Silva. (dei o nome do dono do Camaro)
- Onde você mora ?
- Rua XV n° 527, em uma casa amarela e o meu Camaro preto está estacionado na frente.
- Vou até aí agora mesmo Eduardo. E bom que comece a rezar.
- Ui! Sim ? Que medo me dá, Filho da puta -(e desliguei o telefone na cara).
Imediatamente liguei para o Filho da puta #2.
- Alô - ele diz.
- Olá Filho da puta !!!
- Se eu te encontrar vou...
- Vai o quê ? O que que você vai fazer ???
- Vou chutar teu traseiro !!!.
- Bom, esta é a tua grande oportunidade, pois estou indo para tua casa Filho da puta!!!" -(e desliguei o telefone na cara).
Logo, fiz outra ligação para a polícia. Falei que estava na Rua XV n° 527 e que ia matar o meu namorado homosexual assim que ele chegasse em casa.
Finalmente peguei o telefone e liguei o progama da CNT Cadeia Alborguetti para reportar que ia começar uma guerra de gangs na Rua XV n° 527.
Depois de fazer isto, peguei o meu carro e fui para Rua XV n° 527 para ver o espectáculo. Foi glorioso, observar um par de Filhos da puta chutando-se na frente de duas equipes de reportagem, 6 viaturas e um helicóptero da polícia.
Foi uma das melhores experiências de minha vida !!!!"
Do blog de Waleska:
Manifesto Blogueiro
1. A vida é sem censura.
2. Você não tem o direito de me julgar.
3. Se você não gosta do que está vendo, procure em outro lugar.
4. Eu gosto de falar da minha vida.
5. Eu gosto de escrever sobre a vida dos outros.
6. Eu vou postar sempre que achar que devo.
7. Eu não tenho que postar todos os acontecimentos de minha vida.
8. Você não tem que concordar com tudo que eu digo.
9. Eu procuro meu blog todo dia nos sites de busca.
10. Eu compartilho o que eu acho que tem que ser compartilhado.
11. Eu linko para quem me linka.
12. Blogar é terapêutico.
13. Fotos minhas não são obrigatórias.
14. Eu visito sempre os blogs da minha lista.
15. Não vou postar apenas por postar.
16. Eu tenho uma vida além do blog.
17. Eu registrei todas as ferramentas de blog que criei.
18. Posso criticar outros blogs mas não os persigo.
19. Eu tenho o direito de revisar um post.
20. Se blogar tornar-se uma obrigação, eu paro.
21. Eu estou contribuindo com a comunidade blogueira.
22. Se eu tiver que reclamar de algo, assim o farei.
23. Se eu tiver que elogiar algo, assim o farei.
24. Eu não sou o melhor blogueiro do planeta
25. Não tenho que me explicar para você.
Epitáfio
Titãs
(Ségio Britto)
Devia ter amado mais, ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais e até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar
Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar
Do Catarro verde:
Do caderno 2, texto de Ignácio de Loyola Brandão:
Detalhes que levam ao amor
De vez em quando, me perguntam, imperiosos: me dê uma única razão para morar em São Paulo e defendê-la, como você faz. De chofre, embatuco. De chofre é bom, não? Há palavras que a gente nunca imagina que vai usar. Elas não se encaixam, não se ajustam. Tem palavras que tememos, por denunciar a idade.
Expressões como epa, por exemplo. Embatucar é outra. Uma palavra velha, não muito usada. Mas pode voltar ao convívio do coloquial, de um momento para outro. Digamos, de chofre!
Num desses sábados, saindo do supermercado, dei com um (entre muitos) motivos para ficar na cidade: a água-de-coco gelada e saborosa. Empurrando o carrinho de compras, vi que minha mulher, automaticamente, se dirigia para o canto onde estava instalada uma das mais criativas invenções dos tempos modernos: a maquininha de gelar água-de-coco fresco. Quem inventou o avião era um gênio, assim como o criador da caneta Bic ou o do Prestobarba, o do sacarolha, o dos assentos almofadados de privada, o dos saquinhos de gelo vendidos em postos de gasolina, ou o do canudinho para refrigerante.
Já um desastre, para mim, claro, foi a invenção do copo plástico. Tudo que se bebe neles perde o gosto, perde a elegância. Pertenço a uma geração que tomava tudo em copos de vidro (sem fazer barulho, diziam nossas mães; aspirar o líquido significava má educação ou velhice). Sou da geração que não viu os copos "feitos" de vidros de azeitona ou de requeijão. Ainda que nos anos 70, a moda era cortar garrafas para transformar em copos. Um dia, surgiram os canudinhos de palha e ficou prático, moderno, tomar caçulinha ou Coca-Cola Grapete ou Crush. Ficávamos horas com a garrafa na mão, fazendo gênero (ou pose). Só não era possível tomar vitamina (no interior se chamava vitaminado), o canudo se via obstruído. Porque os liquidificadores, ainda incipientes, não trituravam como hoje a banana, o mamão, a maçã.
Intrigada, toda gente perguntava: existe plantação de canudinhos? Como é? De que planta são extraídos? Parecia-me admirável o cultivo de arbustos de canudos, imaginava algo como arrozais ou girassóis. Porque girassol é uma planta meio bruta, enorme, desajeitada, mas que, em conjunto, me dava uma sensação de infinito. Outro mistério: como o girassol girava? Girava durante o dia e, à noite, voltava à posição original? Porque, se girasse sempre no mesmo sentido, teria o tronco retorcido. Estas pequenas curiosidades da vida sempre me encantaram.
Outro enigma criado foi o dos canudinhos. Como eram plantados, colhidos, cortados? Que trabalho incrível deviam dar. E como eram cortados todos do mesmo tamanho? Então, surgiu o plástico e se desprezaram os canudos de palha, deu-se trégua à natureza. Entre um e outro, surgiram, por breve período os canudos de papel encerado. O plástico e o papel deram um avanço, os canudinhos tiveram diferentes diâmetros. Alguém comentou comigo, um dia, que os canudos mais grossos eram imposição das multinacionais de refrigerantes. Leia-se aqui Coca-Cola, porque Pepsi não existia e a influência da Cerejinha era mínima, para não se dizer nula.
Cerejinha é outra palavra que denuncia idade. Cuidado! Sendo os canudos mais grossos, tomava-se mais rapidamente o refrigerante e pedia-se outro. A interpretação devia ser de um daqueles socioideólogos dos anos 60, influenciado pelos livros de Vance Packard que denunciava a sociedade do desperdício. Poucos podem imaginar que até o diâmetro dos canudos entrava nas discussões políticas dos anos 60.
Escrevia e buscava na cabeça outras invenções que mudaram o mundo. O ralador de queijo com manivela seria uma? O long-playing? O bastão de cola Pritt. As sandálias havaianas? O pão de queijo? A bisnaga para a mostarda ou o catchupe? Como certas palavras ficam horrorosas quando aportuguesamos. Por que aportuguesar? Sempre me dá ânsia quando ouço locutores de futebol dizendo juniores. O antigo juvenil era muito mais bonito. Além do mais, júnior em geral indica filho de. E os tais juniores não são necessariamente filhos dos jogadores de futebol. Prossigo com a lista de invenções: seria o cortador de unhas, o trim? Ou o saquinho de leite, a caixinha de papelão? Os dois eliminaram de nossas vidas um som poético: o dos litros de leite batendo musicalmente uns contra os outros na carrocinha do leiteiro. Ou mesmo no caminhão. Com toda a criatividade, com o avanço da indústria do plástico, com a inventividade aguçada, falta, no entanto, ainda um enorme aperfeiçoamento: uma caixinha de CD que se possa abrir e fechar durante um tempo, sem quebrar. Não existe nada mais frágil!
Voltemos à água-de-coco. Quem, um dia, talvez ao contemplar o sistema que há décadas gela o chope, decidiu aprofundar o processo? Inventores anônimos.
Tão admiráveis como os desconhecidos criadores de piadas, de slogans, ou de apelidos para gente e coisas. A nota de 50 tornou-se Roseana nacionalmente, não tem mais jeito. A de 1 real seria Pita ou Maluf? Tão por baixo, tão desprestigiados, no fim da picada. A maquininha de extrair água-do-coco eliminou o facão e o perigo de se decepar a mão ou um dedo. Sempre admirei a habilidade dos abridores de coco, ainda que a espinha me gelasse a cada golpe da lâmina. O novo sistema não eliminou um emprego, porque cocos não caminham sozinhos para a furadeira e depois para a serpentina. Um empregado sempre será necessário para a operação.
Assim, digo que São Paulo tem a melhor água-de-coco do País, comparável às das melhores praias. Gelada, fresca, apetitosa. Porque sempre me irritaram as águas vendidas em frascos nos supermercados. Não conheço nenhuma que não tenha o gosto de sabão, talvez em função dos conservantes químicos necessários. E aqui está um dos motivos por que gosto e fico nesta cidade, apesar dos 250 mil motoboys que infestam as ruas. Não é suficiente? Uma água-de-coco gelada no meio da tarde, no fim do dia? Pequenas razões não nos levam às paixões? Um olhar, um gesto, um cheiro?

